Arte & WebDocumentários

Nessa semana, nós da direção do Cinema e Teoria, trazemos os webdocumentários como a mais nova forma de produzir arte audiovisual por meio das novas tecnologias. Mas antes de falarmos dos webdocumentários, vamos falar de teoria de André Lemos.

 

A arte sempre expressa o imaginário de sua época. A arte moderna tenta se afastar do ecletismo do século XIX, ela se mostra revolucionária, pois prepara a construção do futuro e deixa para trás o passado. A arte moderna é utópica, futurista e funcional, ela se junta à indústria. Os valores artísticos da modernidade representam os valores econômicos, tecnológicos e epistemológicos do maquinismo da modernidade. Na era eletrônica vai explorar muito a interatividade, aliada a rede e a possibilidade de recombinações de informações, isso torna a arte eletrônica, uma arte da comunicação.

A civilização virtual não se caracteriza apenas por ser uma obra puramente tecnológica. Os imaginários social e tecnológico se constroem através de interferências mutuas e complexas. Com a virtualização de várias áreas da cultura, como economia, comunicação ou o trabalho, o mundo passou a ser expresso por bits e ao mesmo tempo as pessoas passaram a ser traduzidas em informações, alimentando as redes e os bancos de dados.

A ciber-arte vai tocar a desmaterialização do mundo pela tecnologia. A arte faz parte do processo de virtualização do mundo. Entender a arte desse final de século é compreender o imaginário dessa cibercultura.

Arte em tempo de virtualização

A virtualização problematiza o atual, virtualizar é questionar. O virtual não é oposto ao real, mas ao atual, virtualidade e atualidade são dois modos de ser diferentes. Toda cibercultura está imersa no processo de virtualização, onde a informação e conhecimento acabam sendo problematizados. Uma informação não é destruída pelo seu consumo, pois a recepção ou utilização da é informação é a sua própria atualização, já o receptor dá sentindo à ela, a atualiza. De acordo com Lévy, a virtualização já é antiga, pois a espécie humana se constituiu por virtualizações (gramaticais, dialéticas e retórica).

Toda arte passa por um processo de virtualização e atualização, toda técnica é a virtualização de uma ação e atualização.

De acordo com Lévy, a arte é uma virtualização da arte, ela virtualiza as virtualizações, experimentando saídas de situações limitadas a um aqui e agora físico ou simbólico. A arte é virtualização da virtualização, pois procura problematizar o real e aumentar os limites do possível. No contexto da arte contemporânea, a arte continua a ser virtualização de uma virtualização, só que sob uma forma digita, que utiliza uma tecnologia virtualizante. E está no meio dos processos de virtualização da linguagem, da técnica e da ética, almejando escapar do aqui e agora e propor soluções concretas ás suas questões.

A civilização virtual se forma na crise da representação clássica, as novas imagens são geradas artificialmente por algoritmos, traduzidas por uma máquina binária e independente do objeto original, descolando-se do mundo. Esses são procedimentos lógicos que solucionam problemas por meio de uma sequência lógica de calculo.

Pode-se afirmar, em um plano epistemológico amplo, que o desenvolvimento contemporâneo vem do desejo moderno de interpretar o mundo através da ciência e manejar a vida social através da técnica.

Depois de Descartes a imaginação, as imagens e os símbolos passaram a ser considerados como escorias sensoriais e como tais não ajudam na construção do conhecimento verdadeiro. O eixo de valores da modernidade pretende acabar com a variabilidade de compreensão da imagem e do imaginário na construção do conhecimento. Na era digital, a imagem se torna um modelo de compreensão e modernização do real, o modelo digital acaba sendo mais real que o próprio real.

As novas formas de criação de imagens se tornam mais eficazes em fazer o mundo funcionar sob um modelo. O mundo se torna uma paródia feita a partir de informações binárias, transformadas e traduzidas por computadores.

 art dancing happy dance body roll GIF

O uso de novas tecnologias pela arte, unidos a informática e os meios de comunicação, constitui a ciber-arte, como a vídeo-arte, o multimídia, a realidade virtual e o teatro.

A vídeo-arte é uma pioneira da ciber-arte, a fragmentação do sistema figurativo moderno surgiu quando o coreano Nam June Paik, inverteu os circuitos de um aparelho receptor causando a perturbação constituição das imagens. A vídeo- arte liderou a destruição do sistema renascentista, perpetuado pela fotografia e cinema. A vídeo-arte não pretende representar a verdade, como Godard dizia que o cinema fazia. Para Paik, não existe verdade, pois não existe aquilo que afirmamos ser real, tudo não passaria de invenção e arranjos.

Machado afirma que a câmara obscura irá desaparecer e com ela todo o fundamento figurativo, naturalista representativo. A grande mudança em relação a fotografia, cinema ou TV é que a ciber-arte não representa mais o mundo.

 

A ciber-arte usa a capacidade das novas tecnologias para explorar, tornando virtuais os processos de hibridação da cibercultura contemporânea. A ciber-arte aparentemente desestabiliza a cultura do espetáculo, deixando os museus, editoras e outros meios analógicos, sem chance de fuga das culturas digitais.

Porém, mesmo que no futuro todos os media se tornem digitais, os media clássicos não vão desaparecer, mas passar por grandes transformações. Todo o processo criativo está passando de uma imitação da natureza, para uma arte na qual o objeto desaparece se tornando modelo, consentindo a simulação da natureza.

A força da ciber-arte está no processo de desmaterialização, digitalização e virtualização do mundo. A ciber-arte é interativa e atua nos espaços mistos da cultura contemporânea. A arte eletrônica não se acaba com o uso e pode circular ao infinito. É nessa circulação de bits que se encontra o cerne da arte eletrônica da cibercultura. Mais subjetiva do que objetiva, a ciber-arte tenta criar novos espaços de experiencias interativas, sob a energia do digital.

Agora onde mais podemos ter filme e arte em conjunto? 

Boa pergunta. Como fenômeno novo, o webdocumentário, ainda não existe muito de literatura e de reflexão teórica a respeito. Também não tem fórmulas prontas e consolidadas. De forma simples, pode-se dizer que um webdocumentário é um “sistema” multimídia, normalmente acessado pela Internet, que reúne informações em diferentes formatos. Webdocumentário é uma nova forma de contar histórias, um novo formato para o gênero documental, bastante diferente das linguagens tradicionais.

Na França, país pioneiro no desenvolvimento de webdocs, já existem diversos produtores e distribuidores desse formado, como os jornais Le Monde e os canais de televisão Arte, France 5, e France 24. No Canadá, o grande destaque são projetos liderados pelo National Film Board (Escritório Nacional do Filme). Existem também exemplos ingleses financiados pela BBC, além de outros projetos interessantes nos Estados Unidos, Espanha e mesmo em países latino-americanos.  Também, existem webdocs usados na comunicação empresarial em companhias que utilizam essas produções para substituir, ou complementar, seus relatórios.

O que diferencia um webdocumentário de uma reportagem multimídia em um site noticioso é sua linha de produção pensada de maneira específica, associada a um “sistema único”. Geralmente, o webdocumentário tem visual exclusivo. Usa uma interface própria como parte da criação de sua identidade. Também tem uma ideia narrativa e um roteiro concebidos especificamente para cada tema.

Um webdoc é algo multimidiático por excelência. O uso da fotografia estática, associado a narração em off, é um elemento importante em diversos projetos recentes. Também nota-se ênfase nos efeitos sonoros. E, obviamente, há também um uso intenso de vídeos e áudios. baseados em vídeo.

Além disso, o webdocumentário costuma ter um tema fechado e específico. Não é, portanto, um “portal multimídia” para diferentes assuntos. Mesmo quando um webdocumentário é composto por episódios ele costuma se dedicar a um só tema.

E por último – e mais importante – o webdocumentário tem como característica essencial o rompimento da linearidade. Por meio das escolhas ao navegar, o internauta deixa de ser apenas um espectador e participante na obra, escolhendo o que ver, quando ver e em que ordem ver. Ele pode interagir e ser coautor da produção, não apenas agregando comentários, mas participando do documentário.

E a direção do Cinema e Teoria assistiu alguns webdocs sobre diferentes artes. Confira:

Arte e futebol:

 

Arte de rua:

 

Para finalizar…

O que temos de reflexões teóricas no Brasil sobre webdocumentários?

Poucos são os livros brasileiros que se dispõem a estudar as novas narrativas interativas. Mas Gêneros e Formatos no Ciberjornalismo – Estudos e Práticas, de Raquel Longhi e Rita Paulino quebram esse paradigma.

Especificamente sobre webdocumentários, o livro traz o artigo “Webdocumentário: múltiplas narrativas para o envolvimento com a realidade”, de Luiz Fernando de Oliveira e Marcela Varasquim.

O artigo apresenta as características que constituem a identidade do webdoc, além de estabelecer paralelos com o documentário produzido para o cinema e para a televisão. De acordo os autores, “o produto nativo do meio digital possui modelos de produção, forma e distribuição próprios, o que pode garantir o seu espaço no campo do documentário como uma categoria específica”.

Gostou? Deixe seu comentário abaixo e nos diga também quais webdocs você nos indica!

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