Curta ou longa-metragem? A verdade das durabilidades tecnológicas.

Bom dia, boa tarde ou boa noite, querido público! Aproveitaram o recesso? Pois nós da direção do Cinema e Teoria aproveitamos muito. Durante os dias de descanso, fizemos uma pesquisa sobre o tema desta semana, Inovação e obsolescência, “novas” e “velhas” tecnologias. Por isso pegue sua pipoquinha quente e crocante e se acomode na poltrona, que aí vem história.

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#PraCegoVer
Descrição da imagem: GIF da vinheta do quadro Senta Que Lá Vem História do programa Rá-Tim-Bum na TV Cultura. Sofá adentrando uma sala colorida claramente projetada em computador, com menino em preto e branco deitado. Assim que o sofá entra e toca o chão, o menino senta e apoia a mão no queixo, em sinal de atenção para escutar a história que está por vir.

Você já ouviu falar em convergência midiática? Esse conceito foi apresentado no livro “Cultura da Convergência”  por Henry Jenkins, coordenador o Programa de Estudos de Mídia Comparada do Massachusets Institute of Tecnology (MIT).  De acordo com Jenkins, convergência é o fluxo de conteúdos através de múltiplos suportes midiáticos. Dessa forma, ele afirma que tal modo de convivência é adequado ao momento em que vivemos devido a sua versatilidade e adaptabilidade aos diversos aparatos tecnológicos do dia a dia.

Além disso, essa proposta não é só tecnológica, mas sim, cultural. A criação de novas plataformas existe devido a uma necessidade social que está relacionada ao fluxo de imagens, ideias, histórias, sons e relacionamentos. Na visão de Henry Jenkins, a convergência midiática vai além da tecnologia, abordando as novas relações de produção em relação às próprias indústrias de mídia, interagindo entre si, e com os consumidores.

Para exemplificar na prática a teoria de Jenkins, nós escolhemos a animação da Disney e da Pixar, Wall-e (2008). O filme se inicia no ano de 2700, tendo como cenário principal o nosso planeta, basicamente desabitado. Ele se apresenta como um grande depósito de lixo, no qual o personagem principal do filme, Wall-e (Waste Allocation Load Lifters – Earth – Levantador de Carga para Alocação de Lixo – Classe ‘Terra’), trabalha para compactar e organizar todo esse entulho, sozinho, uma vez que seus companheiros de profissão já se encontram estragados. Assim, ele e sua barata de estimação são os únicos habitantes daquele planeta cinzento.

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#PraCegoVer
Descrição da imagem: GIF do robô Wall-e na terra observando o céu estrelado. Fundo marrom, terroso, da mesma cor do robô. O céu azul estrelado reflete nos “olhos” do personagem, que está olhando para cima.

Percebemos, ao longo do filme, que os seres humanos que estão a bordo da estação espacial estão tão acomodados que são incapazes de se levantar sozinhos ou de se locomover sem auxílio de aparelhos especiais para tal. Bastante rechonchudos, gastam seu tempo basicamente comendo, fazendo com que os robôs executem seus desejos mais banais.

Assim, esse filme, extremamente criativo e cativante, fornece diversos pontos relativos à questão do lixo que podem ser discutidos, mas vai mais além ao mostrar outras facetas do consumismo e facilidades da vida moderna, tais como a alienação, comodismo, preguiça e problemas de saúde.

Lixo e consumismo, assuntos chaves do filme, fazem parte da nossa realidade de acordo com Jenkins. Um exemplo que vivemos na vida real é aumento no numero de “caixas pretas” (aplicativos tecnológico de convergência) em nossas casas. Onde antes existia uma televisão, hoje tem videocassete, um decodificador, um DVD, um gravador digital, um aparelho de som, um console de videogame e coisas do tipo. Todos com vida útil limitada, tornando-se instrumentos de injeção financeira.

Por falar nisso, você já ouviu falar em obsolescência programada? Esse conceito foi criado na década de 30 e foi apresentado no livro The New Prosperity de Bernard London, a fim de salvar os Estados Unidos da Grande Depressão. Ele defendia que todos os produtos deveriam ter uma vida limitada, com uma data de validade. Tentava-se equilibrar capital e trabalho para ajustar a economia e dessa forma, sempre haveria mercado para novos produtos, faria mão de obra e o capital teria recompensa.

Bernard London acreditava que com a obsolescência programada obrigatória faria com que as fábricas continuassem produzindo, as pessoas continuariam consumindo e haveria trabalho para todos. Mas, segundo conta o documentário “Comprar, Descartar, Comprar: A história secreta da Obsolescência Programada”, desde muito antes, na época que a lâmpada elétrica foi inventada (aquela por Thomas Edison em 1879), é que realmente foi formulado esse tipo de processo, onde o produto se deteriora rápido para poder o consumidor comprar mais do mesmo, numa versão melhorada (ou não).

https://www.youtube.com/watch?v=wnxlBWLF3mU 

O único (e muito importante) problema é que naqueles tempos não se tinha uma preocupação com o meio ambiente muito menos com a preservação dele, já que as fontes primárias eram “ilimitadas” e então fomos culturalmente ensinados a consumir e descartar como demonstra o curta Man de Steve Cutts:

https://www.youtube.com/watch?v=WfGMYdalClU

De acordo com Lemos em seu artigo “Cibercultura como território recombinante”, existem três leis que estão na base do processo cultural atual na cibercultura: a liberação do polo da emissão, o principio de conexão em rede e a reconfiguração sociocultural a partir de novas práticas produtivas e recombinatórias.

Mas pera, o que que é isso?

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#PraCegoVer
Descrição da imagem: Personagem Nazaré Tedesco, da novela Senhora do Destino, parecendo confusa. Câmera focada apenas no rosto da personagem, que se aproxima e distancia algumas vezes, revelando um fundo cinza.

Calma, é fácil de entender. No início, a comunicação tinha um formato em que apenas um era detentor da informação e de como iria ser compartilhada – o formato “um-para-todos”. A cibercultura tornou cotidianos os atos de produzir e acessar informações, assim, em todo lugar existem pessoas que podem produzir e acessar informação de forma global – o formato “muitos-para-muitos”.

Steve Cutts é um ilustrador e animador inglês que, embora já tenha trabalhado para grandes empresas como Coca-Cola, Sony, Toyota e Reebok, é reconhecido por algumas das animações de curta duração que produziu e publicou no YouTube, compartilhando sua arte e ideias com todos, assim como você faz nas suas redes sociais. O que André Lemos propõe é de não ser suficiente apenas emitir informações sem compartilhá-las, é necessário entrar em conexão com os outros, trocar informações, é necessário que a informação circule. Sendo assim, emitir e conectar produz o terceiro princípio: a reconfiguração da cultura.

Man é um curta que narra a (auto)destruição humana desde os primórdios até os tempos mais recentes e com um final pra lá de inusitado. Porém ele utiliza da linguagem visual e caricata para torná-la chamativa como um alerta para cada um que assiste ao vídeo. Assim como em Wall-e, um dia teremos tanto lixo que não conseguiremos mais viver aqui na Terra. No documentário Comprar, Descartar, Comprar, percebemos que apesar de tanta tecnologia, os produtos duram cada vez menos, produzindo assim mais lixo.

Mas…

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#PraCegoVer
Descrição da imagem: GIF de um rapaz sentado em uma cadeira giratória de couro, em uma sala que aparenta ser um escritório, com quadro de avisos, mesa, computador, fones de ouvido, tripé para câmera, entre outros ao fundo. A cadeira gira e o rapaz usando um boné preto e amarelo e camisa azul fala o que está escrito na legenda do GIF, “Parece que o jogo virou”.

…nós já começamos a nos atentar a isso e desenvolvemos tecnologia para alterar o rumo da história.

Um exemplo relacionando à cinema que encontramos foi a produção do filme “A volta do Todo Poderoso” (2007) da Universal Studios. Com a iniciativa do diretor Tom Shadyac, tentaram ser o primeiro filme ecológico, ou seja, que não deixaram “pegadas de carbono”, onde para cada pegada que geraram voando para chegar nas locações com a equipe, zeraram plantando 2000 árvores em uma reserva de vida selvagem na Virginia central. Além disso, Tom comprou bicicletas para todos afim de que o elenco e equipe não precisassem usar carros como meio de transporte da locação para o set.

No filme – que se utiliza da narrativa bíblica da Arca de Noé de modo criativo – precisou ser construído uma arca de verdade e depois doaram toda a madeira aproveitável para o Habitat para a humanidade, Charlottesville, Virginia, uma ONG que constrói casa de baixo custo em parceria com famílias de baixa renda (e que também tem aqui no Brasil!). O cedro que não pôde ser reaproveitado, foi picado para adubo. Além da madeira receberam cerca de 120 portas e janelas que foram usadas nas três casas no set e também todo o material usado no filme para criar as ruas dos sets. Derreteram e venderam o aço e o dinheiro foi para o Habitat. Tudo um bom exemplo de reciclagem.

Como diz no caminho final do documentário, não é apenas com os três R’s que a gente vai conseguir mudar esse cenário – apesar de ser um ótimo começo – mas sim da perduração das coisas e isso inclui as tecnologias de longa duração. Criar um ciclo parecido ao da natureza que nasce, cresce, produz, porém ao morrer não causa resíduos, apenas nutrientes. Reduzir e mudar a forma de lógica de consumo e nossa pegada de carbono.

A iniciativa com cinema sustentável e tecnologia no Brasil começou com o Cinesolar, um projeto da Brazucah Produções que consiste em um cinema itinerante que, desde 2013, utiliza energia limpa e renovável – a solar – para realizar exibições de filmes em todo o país. O Cinesolar é um furgão equipado com placas solares que são capazes de gerar a energia responsável por toda a estrutura de exibição, formada por projetor e sistema de som. Além de realizar uma sessão sustentável, o projeto traz o tema sustentabilidade a tona com a exibição de curtas-metragens com temática ambiental e energias renováveis, mas também são exibidos filmes longas-metragens brasileiros de sucesso.

Bom, por hoje é só! Quais outros exemplos ou iniciativas tecno-sustentáveis você conhece? Conta pra gente na caixinha a baixo! Até o próximo tema!

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#PraCegoVer
Descrição da imagem: GIF do filme Wall-e, em que o robô Wall-e guarda uma muda de planta encontrada na terra dentro do que aparenta ser uma caixa térmica antiga, vermelha com a tampa branca. O foco está apenas nas “mãos” do robô, junto da planta e da caixa. No fundo, a caixa está sob chão de terra.
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Um comentário em “Curta ou longa-metragem? A verdade das durabilidades tecnológicas.

  1. Achei incrível as informações citadas.
    O bom é que nos faz refletir até o onde o homem vai na sua produção de lixo, e o melhor é que temos uma animação, Wall-e, que trás um tema super importante, mas de um jeito que as crianças possam entender.
    O texto está muito bem redigido.
    Parabéns a equipe.

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